Agendar primeira consulta
Fale conosco pelo WhatsApp

Alterações no esvaziamento gástrico podem afetar a digestão e a qualidade de vida. Entenda as causas, os sintomas e as opções de tratamento para a gastroparesia.

A digestão é um processo complexo, que depende da perfeita coordenação entre os músculos do sistema gastrointestinal, nervos e hormônios. Quando essa coordenação é inadequada, distúrbios podem surgir, causando sintomas e impactando significativamente a qualidade de vida. Entre essas condições, a gastroparesia se destaca por afetar diretamente o esvaziamento do estômago. Mesmo não sendo amplamente conhecida, ela tem incidência crescente e exige atenção médica especializada para o diagnóstico e tratamento adequados.

Pessoas com gastroparesia frequentemente enfrentam desafios diários relacionados à alimentação, nutrição e bem-estar. O diagnóstico pode ser difícil, uma vez que os sintomas se confundem com outras condições gastrointestinais como refluxo e dispepsia funcional. Por isso, é fundamental compreender essa enfermidade.

O que é gastroparesia?

A gastroparesia é um distúrbio que compromete o esvaziamento gástrico, ou seja, o processo pelo qual o estômago envia os alimentos digeridos para o intestino delgado. Isso ocorre sem obstruções mecânicas visíveis, mas devido (entre outras causas) à perda de motilidade adequada da musculatura gástrica.

Quando esse movimento não acontece de forma eficiente ou quando o esfíncter gástrico (piloro) não relaxa adequadamente, os alimentos permanecem no estômago por mais tempo do que o normal. Esse retardo no esvaziamento provoca sintomas desconfortáveis como náuseas, vômitos e empachamento, pode afetar a absorção de nutrientes e, em casos graves, gerar complicações nutricionais importantes.

Embora a gastroparesia possa afetar qualquer pessoa, ela é mais comumente diagnosticada em mulheres e em pacientes com diabetes mal controlado. O reconhecimento precoce e o manejo individualizado são essenciais para minimizar seus impactos.

Principais causas da gastroparesia

A gastroparesia pode ter diversas causas. Algumas são bem estabelecidas na literatura médica, enquanto outras ainda estão sendo estudadas.

Doenças metabólicas e neurológicas

Entre os fatores mais comuns associados à gastroparesia estão as doenças metabólicas, com destaque para o diabetes mellitus, e os distúrbios neurológicos que afetam o controle motor do estômago.

O diabetes é considerado a principal causa conhecida da gastroparesia. A hiperglicemia prolongada, especialmente quando mal controlada, pode causar lesões nos nervos que coordenam a atividade do trato gastrointestinal, especialmente o nervo vago, responsável pelo esvaziamento gástrico.

Além do diabetes, diversas doenças neurológicas também estão associadas à disfunção motora do estômago. Entre elas, destacam-se o mal de Parkinson, a esclerose múltipla e algumas neuropatias periféricas. Esses distúrbios podem interferir na sinalização entre o sistema nervoso central e o trato digestivo, dificultando o trânsito normal dos alimentos.

Condições autoimunes e inflamatórias

Condições autoimunes e doenças inflamatórias crônicas também podem desencadear gastroparesia. Nesses casos, o sistema imunológico passa a atacar tecidos saudáveis, afetando diretamente os nervos entéricos ou a musculatura gástrica.

Algumas doenças reumatológicas, como lúpus eritematoso sistêmico e esclerodermia, têm sido associadas à gastroparesia. Na esclerodermia, por exemplo, há fibrose da musculatura lisa do trato gastrointestinal, o que prejudica o esvaziamento gástrico. Já no lúpus, a inflamação sistêmica pode atingir os nervos envolvidos na motilidade gástrica.

Além disso, algumas enterites crônicas e condições inflamatórias do trato digestivo, como a doença celíaca não tratada, também podem comprometer a função gástrica e contribuir para o aparecimento do quadro.

Intervenções cirúrgicas

Cirurgias que envolvem o estômago, esôfago ou outras estruturas adjacentes podem comprometer a inervação ou a anatomia funcional do sistema gastrointestinal. Isso pode resultar em gastroparesia, mesmo quando não há lesão mecânica evidente.

Procedimentos como gastrectomias parciais, fundoplicaturas (usadas para tratamento de refluxo) e cirurgias bariátricas, especialmente a gastrectomia vertical (sleeve), podem afetar diretamente a motilidade gástrica. Isso ocorre tanto por alterações na anatomia quanto por lesões inadvertidas no nervo vago, um dos principais responsáveis pelo esvaziamento do estômago.

Em alguns casos, a gastroparesia pode se desenvolver meses ou até anos após a cirurgia, dificultando a associação direta com o procedimento.

Medicamentos

O uso de certos medicamentos também pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de gastroparesia, principalmente se utilizados de forma contínua.

Fármacos como opioides (morfina, codeína), antidepressivos tricíclicos, antagonistas dos canais de cálcio e anticolinérgicos podem reduzir a contração da musculatura lisa gástrica, retardando o esvaziamento. Alguns desses medicamentos são prescritos para tratar dores crônicas, hipertensão, depressão ou distúrbios do sono, o que aumenta o risco de interferência no trato gastrointestinal.

Gastroparesia idiopática

Em cerca de 30% a 40% dos casos, mesmo após extensa investigação, não se encontra uma causa específica para a gastroparesia. Nesses casos, o diagnóstico é de gastroparesia idiopática.

Apesar da ausência de uma etiologia identificável, esses pacientes apresentam sintomas típicos da doença, com retardo do esvaziamento gástrico documentado por exames como a cintilografia. Acredita-se que fatores genéticos, alterações sutis na inervação entérica ou processos inflamatórios subclínicos possam estar envolvidos, mas ainda não há consenso na literatura.

O manejo da gastroparesia idiopática segue os mesmos princípios terapêuticos dos outros tipos, com atenção especial ao controle dos sintomas e à manutenção do estado nutricional.

Sintomas da gastroparesia

Os sintomas da gastroparesia variam de acordo com a gravidade da condição, mas, em geral, incluem desconfortos frequentes e persistentes após a alimentação.

Entre os principais sintomas relatados pelos pacientes, estão:

  • Sensação de estômago cheio após pequenas refeições;
  • Náusea;
  • Vômito (especialmente de alimentos ingeridos horas antes);
  • Dor abdominal;
  • Inchaço abdominal;
  • Falta de apetite;
  • Perda de peso involuntária;
  • Refluxo gastroesofágico;
  • Desnutrição progressiva em casos graves.

É importante ressaltar que nem todos os sintomas estão presentes em todos os pacientes. Por isso, o diagnóstico requer avaliação clínica detalhada e exames complementares.

Como é feito o diagnóstico da gastroparesia

O diagnóstico da gastroparesia exige uma abordagem cuidadosa e individualizada. A primeira etapa consiste em uma anamnese detalhada, em que o médico investiga sintomas, histórico médico, uso de medicamentos e doenças preexistentes.

Após essa etapa, são solicitados exames que avaliam a motilidade gástrica, descartando causas mecânicas para o esvaziamento lento do estômago. Entre os principais exames utilizados estão:

  • Cintilografia de esvaziamento gástrico: mede o tempo que o alimento permanece no estômago;
  • Endoscopia digestiva alta: ajuda a excluir obstruções mecânicas e outras doenças estruturais;
  • Ultrassom ou tomografia abdominal: úteis para investigação complementar;
  • Manometria antro-duodeno-jejunal: exame mais raramente utilizado, avalia o padrão de contrações do antro e do piloro;
  • Testes de respiração e cápsulas de monitoramento: tecnologias mais recentes que podem complementar o diagnóstico.

Tratamento para gastroparesia: quais são as opções?

O tratamento da gastroparesia varia de acordo com a gravidade dos sintomas e a resposta do paciente às medidas iniciais. O objetivo principal é controlar os sintomas, promover o esvaziamento gástrico e garantir uma boa nutrição.

As principais abordagens incluem:

  • Modificações na dieta: recomendam-se refeições pequenas, frequentes, com baixo teor de gordura e fibras insolúveis. A consistência dos alimentos também pode ser ajustada, priorizando líquidos e alimentos pastosos;
  • Medicamentos procinéticos: esses fármacos estimulam a motilidade gástrica, ajudando no esvaziamento do estômago;
  • Antieméticos: usados para controlar náuseas e vômitos;
  • Terapia nutricional: em casos severos, pode ser necessário o suporte nutricional enteral (via sonda) ou parenteral (via intravenosa);
  • Estimulação gástrica elétrica: indicada para casos refratários, consiste na implantação de um dispositivo que envia pulsos elétricos ao estômago;
  • Intervenções endoscópicas: técnicas como a G-POEM (miotomia gástrica endoscópica) vêm ganhando destaque no tratamento de pacientes com sintomas persistentes;
  • Cirurgias: utilizadas em última instância, quando alternativas falharam.

O acompanhamento multidisciplinar, envolvendo nutricionistas e outros profissionais da saúde, é parte essencial do tratamento.

Gastroparesia e câncer: existe alguma relação?

Em alguns casos, a gastroparesia pode estar relacionada ao câncer, especialmente quando há envolvimento do trato gastrointestinal superior. Tumores podem afetar diretamente a motilidade gástrica ao invadir nervos, como o nervo vago, ou por meio de síndromes paraneoplásicas. Além disso, tratamentos como quimioterapia e radioterapia podem comprometer o esvaziamento gástrico, levando ao surgimento ou agravamento da gastroparesia.

 

Fontes:

National Library of Medicine

Cancer Therapy Advisor

American College of Gastroenterology