Procedimento é realizado no tratamento de lesões malignas superficiais e pré-malignas do trato digestivo
Os tratamentos de neoplasias e lesões pré-malignas nas paredes de órgãos como o esôfago, o estômago e o intestino devem passar, quase sempre, por processos cirúrgicos para a sua remoção ou para a retirada de fragmentos tanto com o intuito de tratar a doença quanto para fazer análises em exames de biópsia (anatomopatológico).
Em muitos casos, no entanto, o processo de remoção endoscópica por técnicas habituais, como a polipectomia ou a mucosectomia, pode não ser eficaz, especialmente em lesões grandes ou aderidas à parede do órgão. Além disso, há um risco aumentado de recidiva (retorno) da lesão quando ela é removida em pedaços (fragmentos).
Com o intuito de possibilitar uma retirada mais efetiva de fragmentos únicos dessas lesões, foi desenvolvida, nos anos 90, uma técnica minimamente invasiva chamada dissecção endoscópica de submucosa (ESD). Entenda, no conteúdo a seguir, quando o procedimento é indicado e como é realizado.
O que é a dissecção endoscópica de submucosa?
Como mencionado, a dissecção endoscópica de submucosa é uma técnica minimamente invasiva que permite a remoção de grandes lesões em fragmentos únicos através da abertura e da dissecção direta da camada submucosa das paredes dos órgãos que formam o tubo digestivo, como o esôfago, o estômago, o intestino grosso e o reto.
Além de promover uma ressecção em fragmento único, a ESD garante que as margens laterais do corte fiquem livres de lesão. Em comparação a outros procedimentos, portanto, a dissecção endoscópica de submucosa se traduz em uma diminuição de riscos de recidiva ou de retorno do tumor sobre a cicatriz. Além disso, a análise do fragmento único retirado por meio da ESD costuma ser mais acertada em relação à malignidade e ao estadiamento ou à gravidade da doença.
Quando o procedimento é indicado?
Em geral, a dissecção endoscópica de submucosa é indicada para o tratamento de cânceres superficiais do tubo digestivo (de estômago, colorretal e de esôfago), além daqueles que podem se tornar malignos com a sua evolução, como os pólipos intestinais e o esôfago de Barrett.
Nesse sentido, o tratamento com ESD tem como principais finalidades:
- Remover lesões tumorais gástricas e colorretais malignas e pré-malignas em estágios iniciais;
- Remoção de lesões em situações em que é necessário preservar ao máximo as estruturas dos órgãos;
- Ressecção de lesões recidivadas que estão aderidas ao órgão e não são passíveis de remoção por outras técnicas endoscópicas.
Como a dissecção endoscópica de submucosa é realizada?
A dissecção endoscópica de submucosa, como dito anteriormente, é um procedimento minimamente invasivo, realizado por meio de uma endoscopia ou colonoscopia, a depender do órgão onde a lesão se encontra.
O primeiro passo do tratamento é a identificação e a avaliação da lesão com um aparelho de endoscopia de alta definição, o que permite uma visualização com muitos detalhes da mucosa dos órgãos. Isso é essencial e confirma o aspecto superficial da neoplasia, o que torna possível, portanto, o tratamento por endoscopia. Em seguida, são utilizados instrumentos, como facas eletrocirúrgicas, agulhas e alças, para realizar o procedimento. Assim que a lesão é dissecada com sucesso da área a ser tratada, ela é removida e enviada para análise. Apenas após a validação de que se trata de um câncer superficial é que se confirma a cura.
Em geral, a dissecção endoscópica da submucosa é considerada um procedimento muito delicado e exige muito treinamento e experiência do profissional que a está realizando. Isso é importante porque, na ESD, a lesão precisa ser dissecada em um bloco único e é essencial preservar o órgão para que não haja maiores complicações.
Cuidados antes e depois da ESD
A dissecção endoscópica da submucosa é um procedimento que exige o preparo habitual para um procedimento endoscópico (jejum oral de 8 horas e preparo intestinal caso haja lesão de cólon ou de reto). Além disso, por se tratar de uma cirurgia endoscópica, normalmente é preciso uma avaliação pré-anestésica, bem como exames laboratoriais, e eventualmente suspender o uso de determinados tipos de medicamentos. Esses cuidados podem variar de acordo com o tipo, a extensão e a localização da lesão a ser tratada, sendo determinados caso a caso.
Depois da dissecção endoscópica da submucosa, a recuperação costuma ser tranquila e relativamente rápida, com pouca ou nenhuma dor, principalmente por causa do caráter minimamente invasivo do procedimento.
Em geral, é importante manter uma dieta líquida ou pastosa nos primeiros dias após a dissecção e seguir outras orientações a respeito de dieta ao longo das semanas seguintes, que, assim como na preparação, podem variar de acordo com o tipo de lesão tratada.
Na maioria dos casos, se não houver nenhum tipo de complicação, o paciente pode retomar as suas atividades diárias em, no máximo, 7 dias após a ESD. Nesse período, e posteriormente, devem ser realizados alguns exames com o intuito de acompanhar a evolução do tratamento.
Riscos e complicações
Em geral, a dissecção endoscópica de submucosa é um procedimento seguro, inclusive citado como vantajoso em relação a outros tipos de tratamentos de cânceres e lesões do tubo digestivo, especialmente as cirurgias convencionais. No entanto, ainda que raras, pode haver complicações, como sangramentos, perfurações, estreitamento do esôfago e recidiva da lesão. Algumas delas podem requerer tratamento cirúrgico.
De qualquer maneira, com os cuidados e o acompanhamento corretos após o procedimento, é possível adotar medidas que possam resolver, o mais rápido possível, qualquer tipo de complicação que venha a ocorrer.
Como escolher um profissional adequado
Como já mencionado anteriormente, a dissecção endoscópica de submucosa é um procedimento muito delicado e relativamente complexo, que, dessa maneira, exige muita destreza, atenção e habilidade do profissional que realizará o procedimento.
Por isso, o primeiro passo para escolher o profissional adequado é buscar informações sobre a experiência na realização de procedimentos como a ESD e outras técnicas de tratamento de lesões tumorais no sistema digestivo.
A especialidade também é outro ponto importante de atenção no momento de escolher um bom profissional para realizar a dissecção endoscópica de submucosa. É essencial que o profissional seja especializado em endoscopia e trabalhe constantemente com procedimentos endoscópico-cirúrgicos.
O Dr. Vitor Brunaldi é endoscopista e mestre, doutor e pós-doutor em Ciências em Gastroenterologia, com fellows nos Estados Unidos e no Japão. Entre em contato e agende uma consulta.
Fontes:
Associação Médica Brasileira
Universidade de São Paulo
Jornal Endoscopia Terapêutica
Memorial Sloan Kettering Cancer Center

